Dr. Cézar Kabbach, Neurocirurgia

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Não é o tamanho do tumor. É o CEP dele.

Por que, num tumor no cérebro, a localização costuma pesar mais que o tamanho, e como isso guia a cirurgia.

Escrito por Dr. Cézar Kabbach, neurocirurgia vascular e base do crânio·6 min de leitura

Quando alguém recebe o diagnóstico de um tumor no cérebro, a primeira pergunta é quase sempre “é grande?”. Faz todo sentido. Mas, no cérebro, existe uma pergunta que costuma importar ainda mais: onde ele está. Deixa eu te explicar.

O endereço importa mais que o tamanho

Um tumor pequeno, num ponto nobre do cérebro, pode ser mais delicado que um tumor grande num lugar silencioso. Dois tumores do mesmo tamanho podem ter histórias completamente diferentes só por causa do lugar onde estão.

É por isso que, muitas vezes, eu me preocupo menos com o tamanho e mais com o endereço.

Homúnculo motor: o mapa do corpo desenhado sobre o córtex cerebral
O homúnculo motor. Cada faixa do córtex comanda uma parte do corpo, e as áreas de mais precisão (mão, face, boca) ocupam um espaço desproporcional no mapa. É esse mapa que eu estudo antes de decidir por onde entrar.Imagem: Homúnculo motor, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons. Base: Penfield e Rasmussen (1950)

O mapa do corpo no cérebro (o homúnculo)

O cérebro tem um mapa: cada faixa do córtex comanda uma parte do corpo, o pé, a perna, a mão, o rosto, a fala. Esse mapa tem até nome: homúnculo.

Quando um tumor fica em cima de uma dessas regiões (as chamadas áreas eloquentes, que comandam movimento, fala e visão), o cuidado precisa ser redobrado.

“Meu objetivo não é só tirar o tumor. É você sair andando igualzinho entrou.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório

Como eu protejo a sua função

Antes da cirurgia, eu estudo esse mapa no seu exame para planejar o acesso mais seguro. Durante a cirurgia, uso monitorização e, em casos selecionados, opero com você acordado, pedindo para você mexer ou falar enquanto eu retiro o tumor.

Assim eu confirmo, em tempo real, que estou preservando o que importa. Meu objetivo não é só tirar o tumor: é você sair andando, falando e sendo você.

Como o mapeamento funciona na prática

Planejar uma cirurgia perto de área eloquente começa muito antes do centro cirúrgico. Nos exames, eu estudo a relação exata da lesão com as regiões de função e com os feixes que levam essa informação para o resto do corpo. É esse estudo que define por onde entrar, e por onde não entrar.

Durante a cirurgia existem duas ferramentas principais. A monitorização acompanha continuamente os sinais que passam pelas vias motoras e sensitivas, e avisa quando alguma coisa começa a sofrer, antes que o dano se instale. E, em casos selecionados, a cirurgia é feita com o paciente acordado em parte do procedimento: ele fala, conta, mexe a mão ou o pé enquanto eu trabalho, e um estímulo elétrico de baixa intensidade mostra em tempo real qual pedaço de tecido não pode ser tocado.

Isso não é sofisticação por esporte. Numa análise que reuniu mais de oito mil pacientes operados de glioma, as cirurgias feitas com mapeamento tiveram menos déficit neurológico grave permanente e, ao mesmo tempo, retiraram mais tumor. Menos sequela e mais ressecção, ao mesmo tempo, é exatamente o que se busca.

“A gente opera acordado às vezes, pra você ir mexendo enquanto eu vou tirando. Assim eu sei que não vou te machucar.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório
Como isso chega no consultório

Quando mostro o exame, a primeira pergunta é quase sempre sobre o tamanho. É grande? A resposta que interessa mais raramente é essa. Eu giro a tela e mostro o mapa: aqui é a área da força da perna, aqui a da mão, aqui a da fala. Explico que um tumor pequeno encostado na área da força pede muito mais cuidado que um tumor maior num lugar silencioso, e que é por isso que, em alguns casos, a cirurgia é feita com o paciente acordado, mexendo e falando enquanto eu trabalho. Nessa hora o medo costuma virar entendimento.

Situação ilustrativa, montada a partir de atendimentos reais. Nenhum paciente específico é descrito.

O vocabulário do seu laudo

As palavras que aparecem no exame e quase nunca são explicadas.

Homúnculo
O mapa do corpo desenhado sobre o córtex cerebral. Cada faixa comanda uma parte do corpo, com tamanho proporcional à precisão, não ao tamanho real.
Área eloquente
Região com função identificável, como movimento, fala e visão.
Monitorização intraoperatória
Acompanhamento contínuo dos sinais nervosos durante a cirurgia, que avisa quando alguma via começa a sofrer.
Cirurgia acordada
Procedimento em que o paciente fica desperto em parte da cirurgia, falando ou se mexendo, para confirmar em tempo real o que está sendo preservado.
Ressecção máxima segura
O objetivo real da cirurgia: retirar o máximo possível sem cruzar o limite que causaria perda de função.

Para levar com você

  • No cérebro, a localização costuma pesar mais que o tamanho.
  • Um tumor pequeno em área nobre pode ser o mais delicado.
  • O homúnculo é o mapa: cada região comanda uma parte do corpo.
  • Áreas eloquentes comandam movimento, fala e visão.
  • Mapeamento e cirurgia acordada ajudam a preservar a função.
  • O objetivo é retirar o máximo com segurança, protegendo você.

Perguntas para levar à consulta

Anote as respostas. Sair da consulta com isso escrito vale mais do que tentar lembrar depois.

  1. Em que região do cérebro está o meu tumor e que função existe ali?
  2. Que funções estão em risco na cirurgia?
  3. Você vai usar monitorização ou cirurgia acordada no meu caso?
  4. Qual é o objetivo realista de ressecção?
  5. Como costuma ser a recuperação de uma cirurgia nessa área?
  6. Vou precisar de reabilitação depois?

Este guia nasceu de perguntas reais de consultório e tem finalidade educativa. Ele não substitui uma avaliação médica: o diagnóstico e a conduta dependem do seu exame e das suas imagens.

Referências

  1. De Witt Hamer PC et al. Impact of intraoperative stimulation brain mapping on glioma surgery outcome: a meta-analysis. J Clin Oncol, 2012. Déficit neurológico grave tardio em 3,4% das cirurgias com mapeamento, contra 8,2% sem. DOI

Imagem: Homúnculo motor, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons. Base: Penfield e Rasmussen (1950).

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Perguntas que eu mais escuto sobre isso

O tamanho do tumor é o que mais importa?
No cérebro, geralmente não. Um tumor pequeno num ponto nobre pode ser mais delicado que um tumor grande num lugar silencioso. Dois tumores do mesmo tamanho podem ter histórias completamente diferentes só pelo lugar onde estão.
O que são áreas eloquentes do cérebro?
São as regiões que comandam movimento, fala e visão. O cérebro tem um mapa, o homúnculo, em que cada faixa do córtex comanda uma parte do corpo. Quando o tumor fica sobre uma dessas regiões, o cuidado é redobrado.
Como o cirurgião protege a minha função durante a cirurgia?
Estudando esse mapa no seu exame antes, para planejar o acesso mais seguro, e usando monitorização durante a cirurgia. Em casos selecionados, a cirurgia é feita com o paciente acordado, mexendo ou falando, para confirmar em tempo real o que está sendo preservado.
Cirurgia acordada dói?
O cérebro não tem receptores de dor. O couro cabeludo e as estruturas de fora são anestesiados, e a pessoa fica desperta apenas na etapa em que a colaboração é necessária. É estranho de imaginar e costuma ser bem mais tranquilo do que parece.
Se o tumor estiver na área da fala ou do movimento, dá para operar?
Em muitos casos sim, e é justamente para isso que existem o planejamento por imagem, a monitorização e o mapeamento. O que muda não é a possibilidade de operar, é o cuidado e o objetivo realista de quanto retirar.
O que quer dizer ressecção máxima segura?
É retirar o máximo possível do tumor sem cruzar o limite que causaria perda de função. Quando esses dois objetivos entram em conflito, a função vence.

Recebeu um diagnóstico de tumor?

Se encontraram um tumor no seu exame e você quer entender, com calma, o que ele significa e quais as opções, vamos conversar.

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