Dr. Cézar Kabbach, Neurocirurgia

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Dentro ou fora do cérebro? Entendendo o meningioma

Por que a diferença entre um tumor que nasce dentro e um que nasce fora do cérebro muda tudo, e por que o meningioma costuma ser uma boa notícia.

Escrito por Dr. Cézar Kabbach, neurocirurgia vascular e base do crânio·5 min de leitura

Receber a palavra “tumor no cérebro” assusta. Mas, antes do tamanho, a pergunta que mais importa é outra: ele nasceu dentro ou fora do cérebro? Deixa eu te explicar por que isso muda tudo.

Duas famílias de tumor

Existem tumores que nascem do próprio tecido do cérebro e crescem infiltrando por dentro: são os intra-axiais. E existem os que nascem de fora e empurram o cérebro sem invadir: são os extra-axiais.

Essa diferença muda o comportamento do tumor, o jeito da cirurgia e o prognóstico.

Ressonância magnética mostrando um meningioma grande
Um meningioma grande na ressonância. Repare que ele tem um limite nítido e empurra o cérebro para o lado, em vez de se misturar com ele. É essa fronteira que ajuda na cirurgia.Imagem: Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O meningioma nasce de fora

O meningioma nasce das meninges, as membranas que envolvem o cérebro (mais precisamente da aracnoide). Ele fica do lado de fora, encostado no cérebro.

Na imagem, costuma aparecer como uma massa homogênea e bem delimitada. Ele empurra o cérebro, mas não o invade.

“Ele não invade o cérebro, ele só empurra o cérebro.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório

Por que costuma ser uma boa notícia

Como não invade, o meningioma geralmente mantém um “plano” que o separa do cérebro, o que ajuda muito a retirá-lo com segurança na cirurgia.

Além disso, o meningioma é o tumor cerebral primário mais comum (cerca de 4 em cada 10) e a grande maioria é não maligna, de comportamento benigno (dados do CBTRUS, 2022). Nem todo caso precisa de cirurgia: alguns só de acompanhamento, e há também a radiocirurgia.

Quando ele é só acompanhado

Boa parte dos meningiomas é descoberta por acaso, num exame pedido por outro motivo, em alguém que não tem sintoma nenhum. Nesses casos, a conduta mais comum não é cirurgia: é acompanhar com ressonância em intervalos definidos para ver se ele cresce e em que velocidade.

O que tira um caso do acompanhamento e leva para o tratamento costuma ser uma destas coisas: sintoma que apareceu e é atribuível ao tumor, crescimento documentado entre um exame e outro, ou uma localização que ameaça estruturas importantes como os nervos da visão. Tamanho isolado, sem nada disso, raramente é o que decide.

Quando é preciso tratar, a cirurgia não é o único caminho. A radiocirurgia entrega radiação concentrada só na região marcada e é uma opção em lesões menores ou em locais de difícil acesso. O que define a escolha é o mesmo de sempre: onde está, do que está perto, o que já está causando e quem é a pessoa.

“As máquinas de radiocirurgia conseguem irradiar só aquela região marcada.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório
Como isso chega no consultório

A palavra tumor entra na sala antes da pessoa. Ela chega com o laudo amassado de tanto ser lido e com uma pergunta pronta: é câncer? Boa parte das vezes eu consigo dar uma notícia melhor do que ela esperava. Mostro na imagem que aquilo nasceu de fora, das membranas que envolvem o cérebro, e que tem uma fronteira nítida com ele. Explico que a maioria é de comportamento benigno e que nem todo caso precisa de cirurgia agora. Muita gente sai da consulta com um plano de acompanhamento, e o alívio é visível.

Situação ilustrativa, montada a partir de atendimentos reais. Nenhum paciente específico é descrito.

O vocabulário do seu laudo

As palavras que aparecem no exame e quase nunca são explicadas.

Extra-axial
Tumor que nasce fora do tecido do cérebro e o empurra sem invadir. É o caso do meningioma.
Intra-axial
Tumor que nasce do próprio tecido do cérebro e cresce infiltrando por dentro.
Meninges e aracnoide
As membranas que envolvem o cérebro. O meningioma nasce da aracnoide, uma delas.
Plano de clivagem
A fronteira que separa o tumor do cérebro. Quando ela existe, a retirada é bem mais segura.
Radiocirurgia
Radiação concentrada numa região marcada, em poucas sessões, sem abrir o crânio. É uma alternativa em casos selecionados.

Para levar com você

  • Antes do tamanho: o tumor nasceu dentro ou fora?
  • Intra-axial: nasce do cérebro e infiltra por dentro.
  • Extra-axial: nasce de fora e empurra sem invadir.
  • O meningioma é extra-axial (nasce das meninges).
  • É o tumor cerebral mais comum e quase sempre benigno.
  • Acompanhar, operar ou radiocirurgia: depende do caso.

Perguntas para levar à consulta

Anote as respostas. Sair da consulta com isso escrito vale mais do que tentar lembrar depois.

  1. Esse meningioma está causando algum dos meus sintomas?
  2. Ele cresceu em relação a algum exame anterior?
  3. O meu caso é de acompanhar, operar ou fazer radiocirurgia?
  4. Se for acompanhar, com que exame e de quanto em quanto tempo?
  5. Quais são os riscos da cirurgia pela localização dele?
  6. Existe pressa nessa decisão?

Este guia nasceu de perguntas reais de consultório e tem finalidade educativa. Ele não substitui uma avaliação médica: o diagnóstico e a conduta dependem do seu exame e das suas imagens.

Referências

  1. Ostrom QT et al. CBTRUS statistical report: primary brain and other CNS tumors, 2015-2019. Neuro-Oncology, 2022. DOI

Imagem: Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

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Perguntas que eu mais escuto sobre isso

Meningioma é câncer?
Na grande maioria das vezes, não. O meningioma é o tumor cerebral primário mais comum, cerca de 4 em cada 10, e a maioria é não maligna, de comportamento benigno (dados do CBTRUS, 2022).
Qual a diferença entre um tumor dentro e um tumor fora do cérebro?
Os intra-axiais nascem do próprio tecido do cérebro e crescem infiltrando por dentro. Os extra-axiais, como o meningioma, nascem de fora e empurram o cérebro sem invadir. Isso muda o comportamento do tumor, o jeito da cirurgia e o prognóstico.
Todo meningioma precisa ser operado?
Não. Alguns casos são apenas acompanhados, outros têm indicação de radiocirurgia e outros de cirurgia. Depende do tamanho, do local, dos sintomas e do crescimento.
Descobri por acaso, num exame de rotina. Preciso operar?
Na maior parte das vezes, não de imediato. A conduta mais comum em meningioma assintomático descoberto por acaso é acompanhar com ressonância em intervalos definidos, para ver se ele cresce e em que ritmo.
O que faria mudar da observação para o tratamento?
Sintoma novo atribuível ao tumor, crescimento documentado entre exames, ou uma localização que ameace estruturas importantes, como os nervos da visão. Tamanho isolado, sem nada disso, raramente é o que decide.
Radiocirurgia serve para o meu caso?
É uma opção em lesões menores ou em locais de difícil acesso cirúrgico. A indicação depende do tamanho, da localização e do que o tumor já está causando, e é comparada caso a caso com a cirurgia e com a observação.

Recebeu um meningioma no laudo?

Se encontraram um meningioma ou uma lesão extra-axial no seu exame e você quer entender, com calma, o que isso significa, vamos conversar.

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