Dr. Cézar Kabbach, Neurocirurgia

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Nevralgia do trigêmeo: a dor que tem cura

Por que a pior dor da face acontece, e por que uma cirurgia pode resolvê-la de vez.

Escrito por Dr. Cézar Kabbach, neurocirurgia vascular e base do crânio·5 min de leitura

A nevralgia do trigêmeo é descrita como uma das piores dores que existem: choques na face que muita gente confunde com problema de dente. A boa notícia é que ela tem causa e tem tratamento. Deixa eu te explicar com calma.

O nervo da sua face

O trigêmeo é o nervo que sente a sua face, dividido em três ramos: a testa e o olho, a bochecha, e o queixo. Quando ele é irritado, dispara uma dor em choque, rápida e forte, às vezes com gatilhos simples: mastigar, falar, escovar os dentes, o vento no rosto.

Por isso muita gente passa anos tratando como dor de dente antes de chegar ao diagnóstico certo.

Diagrama do nervo trigêmeo e seus três ramos na face
O trigêmeo e seus três ramos: testa e olho, bochecha, queixo. A dor segue o território do ramo irritado, e é por isso que tanta gente acha que é problema de dente.Imagem: Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

A causa: um vaso batendo no nervo

Na maioria dos casos existe uma artéria que encosta no nervo bem na saída dele do cérebro. A cada batida do coração, o vaso pulsa e bate no nervo, e é isso que dispara a dor. A ressonância costuma mostrar esse conflito.

Ou seja: existe uma causa concreta, e ela pode ser tratada.

“A craniotomia, que é a abertura do crânio, é mais ou menos do tamanho de uma moedinha de um real.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório

A cirurgia que trata a causa

A descompressão microvascular afasta o vaso do nervo e coloca uma pequena proteção entre eles, sob microscópio. A abertura no crânio é do tamanho de uma moeda, e é uma cirurgia limpa: não há tumor nem aneurisma, é anatomia normal.

É uma das cirurgias mais eficazes da neurocirurgia: a maioria já acorda sem a dor, e cerca de 7 em cada 10 seguem sem dor e sem remédio 10 anos depois (Barker & Jannetta, NEJM 1996). E a idade, por si só, não contraindica: o que decide é o preparo.

Antes da cirurgia, o que se tenta

A cirurgia não é o primeiro passo. Na maioria dos casos, o tratamento começa com medicação específica para dor neuropática, que é diferente de analgésico comum e costuma funcionar bem no início. Muita gente passa anos bem controlada só com isso, e não precisa de mais nada.

O que costuma trazer a pessoa até a cirurgia é uma de duas situações. A primeira é a medicação parar de segurar a dor, mesmo em dose alta. A segunda são os efeitos colaterais: sonolência, tontura, desequilíbrio e alterações que pesam no dia a dia, principalmente em quem já é mais velho.

Existem também procedimentos por punção, feitos por uma agulha que chega até o nervo, e a radiocirurgia. Eles são menos invasivos, e por isso entram em cenários específicos, principalmente em quem não tem condições clínicas para uma cirurgia maior. A diferença é conceitual: esses tratamentos agem sobre o nervo para diminuir a dor, enquanto a descompressão microvascular afasta o vaso e trata a causa do problema.

Uma coisa que eu faço questão de dizer: depois da cirurgia, a medicação não é interrompida de uma vez. A retirada é gradual, porque uma parada brusca pode fazer a dor voltar sem necessidade nenhuma.

“A gente não pode fazer esse desmame muito rápido. É melhor tirar a medicação devagarzinho.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório

O vocabulário do seu laudo

As palavras que aparecem no exame e quase nunca são explicadas.

Nervo trigêmeo
O nervo responsável pela sensibilidade da face, dividido em três ramos: testa e olho, bochecha, e queixo.
Conflito neurovascular
Quando um vaso encosta e pulsa contra o nervo. É a causa mais comum dessa dor.
Descompressão microvascular
Cirurgia que afasta o vaso do nervo e coloca uma proteção entre os dois, tratando a causa.
Dor neuropática
Dor gerada pelo próprio nervo, e não por uma lesão no local onde dói. Responde a medicações específicas, não a analgésico comum.

Para levar com você

  • A nevralgia do trigêmeo é uma dor em choque na face.
  • Não é dor de dente: merece o diagnóstico certo.
  • A causa costuma ser um vaso batendo no nervo.
  • A descompressão microvascular trata a causa, não só o sintoma.
  • Cerca de 7 em 10 ficam sem dor e sem remédio 10 anos depois.
  • Idade não contraindica: o preparo é que decide.

Perguntas para levar à consulta

Anote as respostas. Sair da consulta com isso escrito vale mais do que tentar lembrar depois.

  1. A minha ressonância mostra um vaso encostando no nervo?
  2. Já esgotamos as opções de medicação?
  3. Quais são as opções além da descompressão microvascular?
  4. Quais são os riscos da cirurgia no meu caso?
  5. Como funciona a retirada da medicação depois?
  6. O que acontece se a dor voltar com o tempo?

Este guia nasceu de perguntas reais de consultório e tem finalidade educativa. Ele não substitui uma avaliação médica: o diagnóstico e a conduta dependem do seu exame e das suas imagens.

Referências

  1. Barker FG 2nd, Jannetta PJ et al. The long-term outcome of microvascular decompression for trigeminal neuralgia. N Engl J Med, 1996. Base do dado de cerca de 7 em cada 10 sem dor e sem medicação em 10 anos. DOI

Imagem: Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

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Perguntas que eu mais escuto sobre isso

A nevralgia do trigêmeo tem tratamento definitivo?
A descompressão microvascular trata a causa, e não só o sintoma. É uma das cirurgias mais eficazes da neurocirurgia: a maioria já acorda sem a dor, e cerca de 7 em cada 10 seguem sem dor e sem remédio 10 anos depois (Barker e Jannetta, NEJM 1996).
Por que essa dor acontece?
Na maioria dos casos existe uma artéria que encosta no nervo bem na saída dele do cérebro. A cada batida do coração o vaso pulsa e bate no nervo, e é isso que dispara a dor. A ressonância costuma mostrar esse conflito.
Idade avançada impede a cirurgia?
A idade, por si só, não contraindica. O que decide é o preparo do paciente.
Preciso tentar remédio antes de pensar em cirurgia?
Na maioria dos casos o tratamento começa com medicação específica para dor neuropática, e muita gente fica bem controlada só com isso. A cirurgia costuma entrar quando o remédio deixa de segurar a dor ou quando os efeitos colaterais ficam pesados demais.
Quais são as opções além da descompressão microvascular?
Existem procedimentos feitos por punção, com agulha até o nervo, e a radiocirurgia. Eles são menos invasivos e entram principalmente em quem não tem condições clínicas para uma cirurgia maior. A diferença é que eles agem sobre o nervo, enquanto a descompressão trata a causa.
Posso parar o remédio assim que a dor sumir?
Não por conta própria. A retirada é feita de forma gradual, orientada, porque a interrupção brusca pode trazer a dor de volta sem necessidade.

Convive com a dor do trigêmeo?

Se você ou alguém que você ama convive com essa dor e já tentou de tudo, vamos conversar com calma e ver o que faz sentido pro seu caso.

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