Dr. Cézar Kabbach, Neurocirurgia

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Neuralgia do trigêmeo: a cirurgia vai entortar meu rosto?

A verdade sobre uma das piores dores que existem e sobre a cirurgia que trata a causa.

Escrito por Dr. Cézar Kabbach, neurocirurgia vascular e base do crânio·5 min de leitura

“Vou ficar com o rosto torto?” É uma das primeiras perguntas que escuto de quem tem neuralgia do trigêmeo. O medo é compreensível, mas ele afasta muita gente de tratar uma das piores dores que existem. Deixa eu te explicar com calma.

O que é a neuralgia do trigêmeo

É uma dor em choque na face, fortíssima, que costuma vir com gatilhos simples: mastigar, escovar os dentes, falar, sentir o vento no rosto. Muita gente confunde com dor de dente e demora a chegar no diagnóstico certo.

Na maioria das vezes a causa é um vaso sanguíneo que fica comprimindo o nervo trigêmeo. Ou seja: existe uma causa concreta, e ela pode ser tratada.

Ilustração do nervo trigêmeo com seus três ramos
Os três territórios do trigêmeo. O nervo facial, que move o rosto, é outro nervo, e passa bem à frente dele num espaço minúsculo. É essa vizinhança que dá origem ao medo.Imagem: BruceBlaus, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

De onde vem o medo do rosto torto

O nervo facial, que é o que move o rosto, passa bem na frente do trigêmeo, num espaço minúsculo. Daí nasce o receio. Mas paralisia facial não é o preço da cirurgia: é uma complicação evitável. Em mãos treinadas e com técnica adequada, o nervo facial é preservado.

“Se fosse para deixar sequela, a gente nem fazia cirurgia.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório

Como a cirurgia realmente funciona

A descompressão microvascular não corta o nervo. Ela afasta o vaso que comprime o trigêmeo e coloca uma proteção entre eles, sob microscópio, com precisão milimétrica. Trata a causa da dor, não só o sintoma.

Conviver com a dor não pode ser a única opção por causa de uma frase mal explicada.

O que de fato se sente depois

Já que o medo do rosto torto é o assunto deste guia, vale contar o que costuma acontecer de verdade no pós-operatório, que é bem menos dramático e quase nunca é explicado antes.

A abertura no crânio é pequena, do tamanho aproximado de uma moeda, atrás da orelha. É comum sentir dor local por algumas semanas, com melhora progressiva, e é comum ficar uma área de dormência no couro cabeludo em volta da cicatriz, que costuma diminuir com o tempo. Também são esperados cansaço nas primeiras semanas e alguma instabilidade no equilíbrio nos primeiros dias.

O que não é esperado, e por isso precisa ser avisado sem demora, é febre, saída de líquido pela ferida ou pelo nariz, piora da dor de cabeça em vez de melhora, ou qualquer alteração nova de força, fala ou visão. Essa é a distinção que eu quero que o paciente leve para casa: incômodo esperado é uma coisa, sinal novo é outra.

E a dor que motivou tudo? A maioria acorda sem ela. Quando ela persiste no começo, isso não significa que a cirurgia falhou: o nervo passou anos sendo agredido e leva tempo para se acalmar.

“Quem dá uma pancada no nervo facial não deveria estar fazendo essa cirurgia.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório

O vocabulário do seu laudo

As palavras que aparecem no exame e quase nunca são explicadas.

Nervo facial
O nervo que move os músculos do rosto. É diferente do trigêmeo, que sente o rosto, e passa muito próximo dele.
Paralisia facial
Perda de movimento de um lado do rosto. É uma complicação possível e evitável, não uma consequência esperada da cirurgia.
Craniotomia
A abertura feita no crânio para a cirurgia. Nesse caso é pequena, atrás da orelha.
Descompressão microvascular
Cirurgia que afasta o vaso que comprime o nervo e coloca uma proteção entre os dois. Não corta o nervo.

Para levar com você

  • Dor em choque na face não é dor de dente, merece avaliação.
  • A causa costuma ser um vaso comprimindo o nervo, e isso tem tratamento.
  • A cirurgia afasta o vaso, não corta o nervo.
  • Rosto torto é complicação evitável, não o preço do tratamento.
  • Conviver com a dor não é a sua única opção.

Perguntas para levar à consulta

Anote as respostas. Sair da consulta com isso escrito vale mais do que tentar lembrar depois.

  1. Qual é o risco real de complicação no nervo facial no meu caso?
  2. Quantas cirurgias dessas você faz por ano?
  3. Qual é o tamanho da abertura e onde fica a cicatriz?
  4. O que é esperado sentir nas primeiras semanas?
  5. Quais sinais devem me fazer procurar ajuda no pós-operatório?
  6. Quando eu volto às minhas atividades?

Este guia nasceu de perguntas reais de consultório e tem finalidade educativa. Ele não substitui uma avaliação médica: o diagnóstico e a conduta dependem do seu exame e das suas imagens.

Referências

  1. Barker FG 2nd, Jannetta PJ et al. The long-term outcome of microvascular decompression for trigeminal neuralgia. N Engl J Med, 1996. DOI

Imagem: BruceBlaus, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

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Perguntas que eu mais escuto sobre isso

A cirurgia de nevralgia do trigêmeo entorta o rosto?
Paralisia facial não é o preço da cirurgia: é uma complicação evitável. O nervo facial passa bem na frente do trigêmeo, num espaço minúsculo, e daí nasce o receio, mas em mãos treinadas e com técnica adequada ele é preservado.
A cirurgia corta o nervo?
Não. A descompressão microvascular afasta o vaso que comprime o trigêmeo e coloca uma proteção entre eles, sob microscópio, com precisão milimétrica.
Por que tanta gente confunde essa dor com problema de dente?
Porque é uma dor em choque na face, com gatilhos simples como mastigar, escovar os dentes, falar ou sentir o vento no rosto. Muita gente trata como dor de dente por anos antes de chegar ao diagnóstico certo.
Qual é o tamanho da cirurgia e onde fica a cicatriz?
A abertura no crânio é pequena, de tamanho aproximado ao de uma moeda, feita atrás da orelha. A cicatriz fica escondida na região do cabelo.
O que é normal sentir nas primeiras semanas?
Dor local com melhora progressiva, uma área de dormência no couro cabeludo em volta da cicatriz, cansaço e alguma instabilidade de equilíbrio nos primeiros dias. Tudo isso costuma diminuir com o tempo.
O que não é esperado e exige avisar a equipe?
Febre, saída de líquido pela ferida ou pelo nariz, dor de cabeça que piora em vez de melhorar, ou qualquer alteração nova de força, fala ou visão.

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Se você convive com a dor do trigêmeo ou ficou com dúvida sobre a cirurgia, vamos conversar e ver com calma o que faz sentido pro seu caso.

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