Dr. Cézar Kabbach, Neurocirurgia

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Hemangioblastoma: um tumor benigno, mas cheio de vasos

O que é esse tumor vascular, por que o lugar importa, e quando ele pode ser sinal de uma doença genética (von Hippel-Lindau).

Escrito por Dr. Cézar Kabbach, neurocirurgia vascular e base do crânio·5 min de leitura

“É benigno.” Essa palavra tranquiliza, e com razão. Mas existe um tumor benigno que pede respeito máximo: o hemangioblastoma. Deixa eu te explicar por quê.

Benigno, mas cheio de vasos

O hemangioblastoma é um tumor não maligno, mas repleto de vasos sanguíneos. É mais comum no cerebelo (atrás e embaixo do cérebro), onde costuma aparecer como um cisto com um nódulo.

Por ser cheio de vasos, ele sangra com facilidade. Por isso, retirá-lo exige cuidado redobrado: é onde a experiência em cirurgia vascular faz diferença.

Ressonância magnética de hemangioblastoma no cerebelo, com cisto e nódulo
Hemangioblastoma no cerebelo: o padrão clássico de um cisto com um nódulo na parede. O nódulo é a parte cheia de vasos, e é ela que sangra.Imagem: Wikimedia Commons, CC BY 2.5

Por que o lugar importa

Ele fica perto da passagem por onde circula o líquido que protege o cérebro (o líquor). Quando cresce, pode obstruir essa passagem, e o líquido se acumula, o que chamamos de hidrocefalia.

Ou seja: benigno não quer dizer sem risco. O risco aqui está no lugar e no sangramento.

“A minha função é te dar clareza, não te dar medo.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório

Quando é sinal de uma síndrome

Às vezes o hemangioblastoma faz parte de uma doença genética chamada von Hippel-Lindau (VHL). Nela, podem surgir tumores em vários órgãos: cérebro e retina, rim, glândula adrenal e pâncreas.

Como a VHL é genética, ela pode passar para os filhos. Por isso, quando há suspeita, a gente investiga o corpo todo e conversa com a família. O rastreio (com ressonância periódica, em geral a cada 2 anos) permite detectar cedo e tratar melhor (consenso internacional, 2021). Saber, aqui, é o que protege.

O que muda quando existe a síndrome

Um hemangioblastoma isolado e um hemangioblastoma dentro da síndrome de von Hippel-Lindau exigem cuidados diferentes, e a diferença não está na cirurgia: está no que vem depois dela.

Na síndrome, o cuidado deixa de ser de um tumor e passa a ser de uma pessoa ao longo da vida. Podem aparecer lesões em outros pontos do sistema nervoso, na retina, no rim, na adrenal e no pâncreas, e por isso a investigação é do corpo inteiro, com uma equipe que vai além da neurocirurgia. O acompanhamento por imagem passa a ser periódico, com um intervalo em torno de dois anos, e existe consenso internacional sobre esse tipo de vigilância.

A parte que assusta é a palavra genética, porque ela envolve filhos e irmãos. Eu costumo inverter esse medo: a família que sabe é a família que rastreia, e quem rastreia encontra pequeno, num momento em que tratar é muito mais simples. O oposto disso não é ficar em paz, é ser pego de surpresa.

“Doença genética assusta, mas saber é o que te protege. Quem sabe, rastreia; quem rastreia, pega cedo.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório
Como isso chega no consultório

Esse é um dos casos em que a conversa não termina no paciente. Depois de explicar o tumor, o lugar onde ele está e por que ele exige cuidado redobrado na cirurgia, eu pergunto sobre a família. Quando existe suspeita de von Hippel-Lindau, a investigação passa a ser do corpo inteiro e das pessoas em volta. Já vi essa conversa assustar bastante no começo, e já vi a mesma conversa virar alívio semanas depois, quando o rastreio pega uma lesão pequena, ainda tranquila de tratar, em alguém que nem sabia que precisava olhar.

Situação ilustrativa, montada a partir de atendimentos reais. Nenhum paciente específico é descrito.

O vocabulário do seu laudo

As palavras que aparecem no exame e quase nunca são explicadas.

Hemangioblastoma
Tumor não maligno formado por muitos vasos sanguíneos, mais comum no cerebelo.
Cisto com nódulo mural
O padrão clássico na imagem: uma bolsa de líquido com um nódulo na parede. O nódulo é a parte que precisa ser retirada.
Hidrocefalia
Acúmulo do líquido que circula no sistema nervoso, quando sua passagem é bloqueada.
Von Hippel-Lindau
Síndrome genética que pode causar tumores em vários órgãos, entre eles o hemangioblastoma.
Rastreio
Exames periódicos em quem tem a síndrome ou histórico familiar, para encontrar lesões cedo, quando tratar é mais simples.

Para levar com você

  • Hemangioblastoma é benigno, mas cheio de vasos.
  • É mais comum no cerebelo (cisto + nódulo).
  • Por ser vascular, sangra: exige cuidado na cirurgia.
  • Pode causar hidrocefalia pelo lugar onde fica.
  • Às vezes faz parte da síndrome von Hippel-Lindau.
  • VHL é genética: investigar o corpo, a família e rastrear.

Perguntas para levar à consulta

Anote as respostas. Sair da consulta com isso escrito vale mais do que tentar lembrar depois.

  1. A lesão está causando sintoma ou hidrocefalia?
  2. O meu caso é de operar agora ou de acompanhar?
  3. Existe suspeita de von Hippel-Lindau no meu caso?
  4. Que outros órgãos precisam ser investigados?
  5. A minha família precisa fazer algum exame?
  6. Com que frequência eu vou repetir a ressonância?

Este guia nasceu de perguntas reais de consultório e tem finalidade educativa. Ele não substitui uma avaliação médica: o diagnóstico e a conduta dependem do seu exame e das suas imagens.

Referências

  1. Chittiboina P, Lonser RR. Von Hippel-Lindau disease. Handb Clin Neurol, 2015. DOI
  2. Huntoon K et al. Biological and clinical impact of hemangioblastoma surveillance in von Hippel-Lindau disease. J Neurosurg, 2021. Base do rastreio por ressonância a cada 2 anos. DOI

Imagem: Wikimedia Commons, CC BY 2.5.

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Perguntas que eu mais escuto sobre isso

Hemangioblastoma é câncer?
Não. É um tumor não maligno. Mas benigno não quer dizer sem risco: ele é repleto de vasos sanguíneos e sangra com facilidade, o que exige cuidado redobrado na cirurgia.
Por que o lugar onde ele fica importa?
Porque ele é mais comum no cerebelo, perto da passagem por onde circula o líquido que protege o cérebro. Quando cresce, pode obstruir essa passagem e o líquido se acumula, o que chamamos de hidrocefalia.
Quando o hemangioblastoma indica uma doença genética?
Às vezes ele faz parte da síndrome de von Hippel-Lindau, em que podem surgir tumores em vários órgãos: cérebro e retina, rim, adrenal e pâncreas. Como é genética, pode passar para os filhos, e por isso se investiga o corpo todo e se conversa com a família.
Preciso operar mesmo sem sintoma?
Não necessariamente. Lesão pequena, sem sintoma e sem sinal de crescimento pode ser acompanhada de perto. O que costuma indicar o tratamento é o sintoma, o crescimento ou o risco de bloquear a circulação do líquido.
Toda pessoa com hemangioblastoma tem von Hippel-Lindau?
Não. Uma parte dos casos é isolada. A suspeita da síndrome aumenta quando há mais de uma lesão, história familiar, idade jovem ou achados em outros órgãos, e nesses casos a investigação se estende ao corpo todo e à família.
Com que frequência é feito o rastreio na síndrome?
O acompanhamento por imagem do sistema nervoso costuma ser periódico, com intervalo em torno de dois anos, e existe consenso internacional sobre esse tipo de vigilância. Os outros órgãos têm seus próprios intervalos, definidos com a equipe.

Recebeu um hemangioblastoma?

Se você recebeu esse diagnóstico ou tem histórico de von Hippel-Lindau na família e quer entender o caso e o rastreio, vamos conversar com calma.

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