Dr. Cézar Kabbach, Neurocirurgia

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Seu laudo diz 3 hérnias. Você provavelmente não tem 3 hérnias

Por que um laudo cheio de achados quase nunca descreve o seu problema, e qual é a pergunta que realmente decide.

Escrito por Dr. Cézar Kabbach, neurocirurgia vascular e base do crânio·8 min de leitura

Você fez a ressonância, abriu o resultado e leu três linhas com palavras que nunca tinha visto: abaulamento, protrusão, hérnia. Em níveis diferentes. E a sensação foi de que a sua coluna está desmontando. Eu brinco com os meus pacientes que o laudo serve mais para assustar do que para ajudar, e isso não é piada: o laudo e o diagnóstico são duas coisas diferentes, e confundir as duas é o que faz gente tomar decisão errada com medo.

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O que o laudo faz, e o que ele não faz

O radiologista tem uma obrigação: descrever tudo o que aparece na imagem, milímetro por milímetro. Se existe um abaulamento de 2 mm em L3-L4, ele escreve. Se existe uma protrusão em L4-L5, ele escreve. Ele está fazendo o trabalho dele, e fazendo bem.

O que o laudo não faz é dizer qual daqueles achados está causando a sua dor. Ele não te examinou, não sabe onde dói, não sabe se formiga na perna direita ou na esquerda, não sabe se piora sentado ou em pé.

Por isso a leitura muda completamente quando alguém cruza o exame com você. O mesmo laudo, lido junto do seu sintoma e do exame físico, costuma apontar para um achado que importa, e não para três.

Ressonância de coluna lombar mostrando uma hérnia de disco
O exame mostra o achado. O que ele não mostra é se aquilo é o que está causando a sua dor: isso só aparece quando a imagem é cruzada com o seu sintoma e com o exame físico.Imagem: Ressonância lombar sagital T2 · Michael-W, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

Muita gente sem dor nenhuma tem isso na ressonância

Esse é o dado que quase ninguém conta, e ele muda tudo. Uma revisão publicada no American Journal of Neuroradiology reuniu 3.110 pessoas sem nenhum sintoma e foi olhar o que aparecia na ressonância de coluna delas.

Aos 20 anos, 30% já tinham abaulamento de disco. Aos 80, 84%. Degeneração discal aparecia em 37% dos jovens e em 96% dos mais velhos. Repetindo: pessoas que não sentiam absolutamente nada.

Ou seja, boa parte do que está escrito no seu laudo é o envelhecimento normal da coluna. É como ruga, só que por dentro. Ninguém opera ruga, e ninguém deveria operar achado de imagem que não está causando sintoma.

“Eu sempre brinco com os meus pacientes: o laudo serve mais pra assustar do que pra ajudar.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório

A pergunta que decide: a imagem bate com o que você sente?

Quando eu leio um exame de coluna, eu não estou procurando a lista mais longa de alterações. Estou procurando o achado que explica a sua queixa.

Se a dor desce pela parte de trás da perna até o pé, e existe uma hérnia comprimindo exatamente a raiz que inerva aquele trajeto, aí o laudo e o sintoma se encontram. Esse achado é o que importa. Os outros dois, que o laudo descreveu com o mesmo cuidado, são achados da idade.

E se nada bate? Também é uma resposta, e das boas: significa que a origem da dor provavelmente está em outro lugar, e que operar aquele disco não resolveria nada.

O medo que mais aparece no consultório é o da cadeira de rodas. Ficar sem andar por causa de uma hérnia de disco não é o que acontece na prática. O que de fato pesa numa decisão cirúrgica é outra coisa: a chance de perder força, que é rara e cuja meta é sempre zero, e os riscos gerais de qualquer cirurgia, como anestesia, coração e pulmão.

O que realmente pesa na decisão

Quando alguém me traz um laudo de coluna, eu começo trocando a pergunta. Em vez de discutir quantos achados existem, eu pergunto o que aquilo está fazendo com a pessoa no dia a dia.

Onde dói e para onde irradia. Dor só nas costas e dor que desce pela perna até o pé são histórias diferentes, e apontam para lugares diferentes do exame.

Se existe perda de força. Dor é um sintoma. Fraqueza é outro, e muito mais importante. Dificuldade para levantar a ponta do pé ou para subir escada muda o peso da decisão.

Há quanto tempo. A maioria das crises de dor ciática melhora em semanas com tratamento clínico. Tempo é informação, não é só espera.

O que já foi tentado. Medicação, fisioterapia e mudança de rotina vêm antes, e funcionam na maior parte dos casos. Cirurgia entra quando esse caminho não resolveu ou quando existe um motivo para não esperar.

Só depois dessas quatro respostas o exame volta para a mesa. Aí ele deixa de ser uma lista que assusta e vira o que deveria ter sido desde o começo: uma peça de informação.

Quando dor nas costas vira urgência

Procure um pronto-socorro agora se aparecer perda do controle da urina ou das fezes, dormência na região entre as pernas e ao redor do ânus, fraqueza que está piorando rápido nas duas pernas, ou dor nas costas junto de febre. São situações raras, mas que não esperam consulta agendada. Se você tem histórico de câncer e surgiu uma dor nova nas costas, procure avaliação sem demorar.

Como isso chega no consultório

Chega gente no consultório com o papel na mão, já tremendo, dizendo que tem três hérnias. Eu peço para a pessoa guardar o papel um minuto e me contar onde dói, para onde a dor vai, o que piora e o que melhora. Quase sempre, quando eu volto no exame depois dessa conversa, só um dos achados tem alguma coisa a ver com a história. Os outros dois estavam ali antes da dor começar e vão continuar ali depois que ela passar. A pessoa chegou achando que tinha três problemas e sai sabendo que tem um, e às vezes nenhum que precise de cirurgia.

Situação ilustrativa, montada a partir de atendimentos reais. Nenhum paciente específico é descrito.

O vocabulário do seu laudo

As palavras que aparecem no exame e quase nunca são explicadas.

Abaulamento discal
O disco se alarga de forma difusa, sem um ponto de saliência definido. É o achado mais comum, e na maioria das vezes é desgaste da idade.
Protrusão
Uma saliência mais localizada do disco, sem romper o anel que o contém. Pode ou não comprimir uma raiz nervosa.
Hérnia de disco
O material interno do disco ultrapassa o limite do anel. Só vira problema clínico se comprimir uma estrutura e gerar sintoma.
Raiz nervosa
O nervo que sai da coluna e vai para a perna ou para o braço. É a compressão dela que causa a dor que irradia.
Degeneração discal
Perda de água e de altura do disco com o tempo. Aparece em 96% das pessoas de 80 anos sem nenhum sintoma.
Síndrome da cauda equina
Compressão do feixe de nervos no fim da coluna. É rara e é urgência: perda de controle de urina e fezes, dormência em sela, fraqueza nas duas pernas.

Para levar com você

  • O laudo descreve a imagem. O diagnóstico explica a sua dor. Não são a mesma coisa.
  • 84% das pessoas de 80 anos sem dor nenhuma têm abaulamento de disco na ressonância.
  • Quase sempre um achado é o que importa, mesmo quando o laudo lista três.
  • A pergunta que decide: o que a imagem mostra bate com o que você sente?
  • Leu o laudo e assustou? Não trave. Leve o exame para alguém te explicar.

Perguntas para levar à consulta

Anote as respostas. Sair da consulta com isso escrito vale mais do que tentar lembrar depois.

  1. Qual desses achados do laudo explica a minha dor?
  2. Os outros achados têm alguma importância para o meu caso?
  3. Eu tenho perda de força ou é só dor?
  4. O que acontece se a gente tratar sem cirurgia primeiro?
  5. Quanto tempo é razoável esperar antes de reavaliar?
  6. Que sinais me fariam voltar aqui antes do combinado?

Este guia nasceu de perguntas reais de consultório e tem finalidade educativa. Ele não substitui uma avaliação médica: o diagnóstico e a conduta dependem do seu exame e das suas imagens.

Referências

  1. Brinjikji W et al. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. American Journal of Neuroradiology, 2015. DOI

Imagem: Ressonância lombar sagital T2 · Michael-W, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Perguntas que eu mais escuto sobre isso

Tenho 3 hérnias no laudo. Preciso operar?
Quase certamente não por causa do número. O que define conduta não é quantos achados o laudo lista, e sim se algum deles explica o seu sintoma e o que ele está causando. A maioria das hérnias de disco melhora sem cirurgia.
Abaulamento, protrusão e hérnia são a mesma coisa?
São graus diferentes do mesmo processo. Abaulamento é o disco se alargando de forma difusa, protrusão é uma saliência mais localizada, e hérnia é quando o material do disco ultrapassa o limite. Importa menos o nome e mais se aquilo está comprimindo alguma raiz nervosa e gerando sintoma.
Se aparece na ressonância, é porque está errado?
Não. Aparece na ressonância de muita gente que não sente nada: 30% das pessoas de 20 anos e 84% das de 80 anos, todas sem sintoma. Imagem alterada e problema clínico são coisas diferentes.
Hérnia de disco pode me deixar em cadeira de rodas?
Esse é o medo mais comum e não é o que acontece na prática. Existem situações raras de urgência, como a síndrome da cauda equina, que têm sinais próprios e pedem atendimento imediato. Fora delas, o cenário não é esse.
O laudo mudou em relação ao exame do ano passado. Isso é ruim?
Nem sempre. Laudos de aparelhos diferentes, ou de radiologistas diferentes, descrevem a mesma coluna com palavras diferentes. Comparar laudo com laudo engana. O que vale é comparar imagem com imagem, e cruzar as duas com o que você sente.
Fisioterapia resolve ou só adia a cirurgia?
Na maior parte dos casos resolve de verdade. A maioria das hérnias sintomáticas melhora com tratamento clínico e reabilitação, e o disco herniado inclusive diminui sozinho com o tempo em boa parte das pessoas.
Posso continuar treinando com esse laudo?
Quase sempre sim, e na dose certa o movimento ajuda em vez de atrapalhar. O que muda é como e quanto, e isso se define com quem está acompanhando o seu caso, não pelo laudo.

Quer entender o que o seu laudo diz?

Se você está com um exame de coluna na mão e saiu da consulta com mais dúvida do que entrou, dá para resolver isso numa conversa. Eu abro as imagens com você e explico o que pesa e o que é achado da idade.

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