Dr. Cézar Kabbach, Neurocirurgia

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Operar ou não operar: como essa decisão é tomada

O que pesa de verdade quando um neurocirurgião decide levar (ou não) alguém para a sala de cirurgia.

Escrito por Dr. Cézar Kabbach, neurocirurgia vascular e base do crânio·6 min de leitura

Uma das perguntas mais difíceis que escuto é “preciso operar?”. E, como eu explico no consultório, a resposta quase nunca está só no exame. Deixa eu te mostrar como eu penso essa decisão.

A imagem mostra. Ela não decide

O exame revela o problema, mas não decide sozinho. Quem pesa na balança é a pessoa inteira: idade, saúde, sintomas e o que ela quer da vida.

Por isso a mesma imagem pode ser cirúrgica numa pessoa e não ser em outra. O exame é parte da história, não a história toda.

Três tomografias de crânio mostrando a mesma lesão em sequências diferentes
A mesma lesão, vista de três formas diferentes no mesmo exame. Isso é tudo o que a imagem entrega. Quem decide se opera não é ela: é a soma dela com a idade, a saúde, os sintomas e o que a pessoa quer da vida.Imagem: Cerevisae, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

A pergunta certa

A pergunta nunca é “dá pra operar?”. É “operar vai deixar essa pessoa melhor?”. Eu gosto muito de operar, mas só opero quem precisa. Cirurgia não é troféu, é decisão.

Nem sempre a resposta é sim. E ter a honestidade de dizer isso também é cuidar.

“Às vezes a sua imagem é cirúrgica, mas a senhora não é uma paciente cirúrgica.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório

Risco e certeza

Operar tem risco. Mas não operar, em alguns casos, é a certeza de que vai piorar. Decidir é pesar os dois, com franqueza, junto com você e sua família. Nunca é uma decisão que eu tomo sozinho.

As três perguntas que eu faço antes

Antes de dizer se opera ou não, eu passo por três perguntas na mesma ordem. Elas não são minhas, são o que se espera de qualquer indicação cirúrgica bem feita, mas quase nunca são ditas em voz alta para o paciente.

A primeira é o que acontece se a gente não fizer nada. Essa pergunta parece pessimista e é a mais importante de todas, porque sem ela não existe comparação possível. Em alguns casos a resposta é que provavelmente nada muda por muito tempo, e isso já resolve a conversa. Em outros, a resposta é que a piora é questão de tempo, e aí o não fazer nada deixa de ser a opção segura.

A segunda é o que a cirurgia entrega de concreto: ela cura, ela impede uma piora, ela alivia um sintoma, ou ela só tira uma imagem do lugar. A terceira é o que essa pessoa aguenta e o que ela quer, porque idade, coração, pulmão, rede de apoio em casa e projeto de vida entram na conta com o mesmo peso do exame.

Quando as três respostas apontam para o mesmo lado, a decisão é fácil e rápida. Quando elas divergem, a conversa é longa, e é nessa hora que a pessoa e a família precisam participar de verdade, porque a escolha passa a ser sobre o que se está disposto a arriscar.

“Eu gosto muito de operar. Mas eu só opero quem precisa.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório
Como isso chega no consultório

A consulta que mais me marca não é a que termina com uma cirurgia marcada. É a que termina com alguém entendendo por que não vai operar. Chega gente com um exame que, sozinho, tem indicação cirúrgica clássica, e com um corpo que não sustentaria a cirurgia, ou com sintomas que não justificam correr aquele risco agora. Dizer isso é mais difícil do que operar, e às vezes decepciona quem chegou querendo resolver logo. Mas é o mesmo critério que faz alguém confiar quando eu digo o contrário: que dessa vez sim, é hora de operar.

Situação ilustrativa, montada a partir de atendimentos reais. Nenhum paciente específico é descrito.

O vocabulário do seu laudo

As palavras que aparecem no exame e quase nunca são explicadas.

Indicação cirúrgica
A conclusão de que a cirurgia traz mais benefício que risco naquele caso específico. Não é uma propriedade do exame, é uma conclusão sobre a pessoa.
História natural
O que se espera que aconteça se nada for feito. É a base de comparação de qualquer decisão.
Risco cirúrgico
A estimativa de complicações levando em conta o procedimento e as condições clínicas da pessoa.
Decisão compartilhada
Modelo em que o médico traz as opções e as consequências, e a pessoa traz seus valores e prioridades. A escolha é construída pelos dois.

Para levar com você

  • A imagem mostra o problema, não decide sozinha.
  • A pergunta certa é se a cirurgia vai deixar você melhor.
  • Cirurgia não é troféu, é decisão.
  • Operar tem risco; não operar, às vezes, é certeza de piora.
  • A decisão é sempre compartilhada com você e sua família.
  • Uma segunda opinião honesta vale muito.

Perguntas para levar à consulta

Anote as respostas. Sair da consulta com isso escrito vale mais do que tentar lembrar depois.

  1. O que acontece comigo se a gente não fizer nada?
  2. O que exatamente a cirurgia resolve no meu caso?
  3. Quais são os riscos concretos, considerando a minha saúde?
  4. Existem alternativas à cirurgia?
  5. Se eu esperar, o que a gente vigia e com que frequência?
  6. Se fosse com você ou com alguém da sua família, o que você faria?

Este guia nasceu de perguntas reais de consultório e tem finalidade educativa. Ele não substitui uma avaliação médica: o diagnóstico e a conduta dependem do seu exame e das suas imagens.

Créditos das imagens

Cerevisae, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

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Perguntas que eu mais escuto sobre isso

Como o neurocirurgião decide se opera ou não?
O exame revela o problema, mas não decide sozinho. Quem pesa na balança é a pessoa inteira: idade, saúde, sintomas e o que ela quer da vida. A mesma imagem pode ser cirúrgica numa pessoa e não ser em outra.
Qual é a pergunta certa antes de uma cirurgia?
A pergunta nunca é se dá para operar. É se operar vai deixar essa pessoa melhor. Cirurgia não é troféu, é decisão.
Vale a pena procurar uma segunda opinião?
Operar tem risco, mas não operar, em alguns casos, é a certeza de que vai piorar. Decidir é pesar os dois com franqueza, e uma segunda opinião honesta ajuda nessa conta.
Posso pedir uma segunda opinião sem ofender meu médico?
Pode, e um bom médico não se ofende. Segunda opinião é parte de um processo bem conduzido, principalmente diante de uma cirurgia de cabeça ou de coluna.
O que eu devo perguntar antes de aceitar uma cirurgia?
As três perguntas que organizam qualquer indicação: o que acontece se não fizer nada, o que exatamente a cirurgia resolve, e quais são os riscos considerando a minha saúde e a minha vida.
Se eu decidir não operar agora, essa porta se fecha?
Em geral não, mas isso depende do caso e precisa ser dito com clareza. Existem situações em que esperar não muda nada, e existem outras em que a janela para um bom resultado se estreita com o tempo. Essa diferença precisa estar explícita na conversa.

Quer uma segunda opinião honesta?

Se você está diante da decisão de operar ou não, vamos conversar com calma e olhar o seu caso inteiro, não só o exame.

Atendimento particular · Instituto Neuros, Piracicaba · Resposta em poucas horas

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