Dr. Cézar Kabbach, Neurocirurgia

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Troco uma certeza pelo risco: como eu decido operar um aneurisma

Como um neurocirurgião vascular pesa a decisão de tratar (ou acompanhar) um aneurisma, sem alarmismo.

Escrito por Dr. Cézar Kabbach, neurocirurgia vascular e base do crânio·6 min de leitura

Descobrir um aneurisma assusta, e a palavra “cirurgia” assusta ainda mais. No consultório, eu costumo resumir a minha lógica numa frase: eu troco uma certeza pelo risco. A certeza de que, sem tratar, o aneurisma vai romper em algum momento, pelo risco momentâneo de uma cirurgia. Deixa eu te explicar com calma o que isso quer dizer, e por que nem todo aneurisma precisa ser operado.

Toda decisão é uma troca

Não existe caminho sem risco nenhum. De um lado está a certeza de que, sem tratar, o aneurisma vai romper em algum momento. Do outro, o risco momentâneo do tratamento, que acontece uma vez e num ambiente que eu controlo.

Quando eu indico a cirurgia, é isso que estou fazendo: trocando a certeza de uma ruptura que chegaria algum dia pelo risco de um procedimento que eu escolho a hora de fazer.

Diagrama mostrando um aneurisma cerebral fechado por um clipe cirúrgico
O que a clipagem faz: um clipe fecha o colo do aneurisma e o exclui da circulação. É esse resultado, durável, que está do outro lado da conta quando eu proponho trocar a certeza pelo risco.Imagem: Roberto Stefini, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Nem todo aneurisma é operado

Essa é a parte que mais tranquiliza: a decisão é individual. O tamanho, o local, a sua idade e a sua história pesam juntos. Aneurismas pequenos, em muitos casos, têm risco de ruptura abaixo de 1% ao ano e podem apenas ser acompanhados de perto, com exames periódicos.

O antigo corte de “só opera acima de 7 mm” hoje é considerado ultrapassado: usamos escores que somam vários fatores para estimar o risco do seu caso, não só o tamanho.

“A gente troca um risco por uma certeza. A certeza de que, se a gente não fizer nada, isso vai piorar.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório

Quando a gente trata, o objetivo é curar

Existem dois caminhos: a clipagem (cirúrgica), em que eu coloco um clipe no pescoço do aneurisma e o fecho por fora, e a embolização (endovascular), em que ele é preenchido por dentro com micromolas. Os dois são excelentes, e a escolha é do seu caso.

Com a clipagem completa, aquele aneurisma fica fechado de forma durável. A troca valeu: você deixa de conviver com aquele risco. E, pra mim, não existe aneurisma “fácil”: cada um recebe o mesmo respeito e o mesmo preparo.

O que entra na conta além do tamanho

Durante muito tempo se falou num número mágico, como se acima de determinado tamanho todo aneurisma tivesse que ser operado e abaixo dele nenhum. Esse corte envelheceu. Hoje se usam escores que somam vários fatores ao mesmo tempo: o tamanho, sim, mas também em que artéria ele está, o formato, a sua idade, a sua pressão, se você já teve uma hemorragia antes e de onde você vem.

Quando a conta fecha do lado de acompanhar, isso não quer dizer não fazer nada. Quer dizer um plano: exame de imagem repetido em intervalos definidos, pressão controlada de verdade e cigarro fora. Aneurisma que cresce entre um exame e outro muda de categoria, e é para pegar essa mudança que o acompanhamento existe.

Quando a conta fecha do lado de tratar, a lógica é a que dá nome a este guia. Sem tratamento, o risco fica com você todos os dias, para sempre, e a hora da ruptura não é você quem escolhe. Com o tratamento, o risco acontece uma vez, num dia marcado, num ambiente preparado, com a equipe escolhida. É essa troca que eu proponho, e ela precisa fazer sentido para você, não para mim.

Quando é para procurar o pronto-socorro agora

Dor de cabeça súbita e explosiva, a pior da vida, com ou sem rigidez de nuca, vômito, alteração da visão ou da consciência. Ligue 192. Vale para quem já sabe que tem um aneurisma e para quem não sabe.

Como isso chega no consultório

Chega muita gente com o exame de um lado e o medo do outro, esperando que eu diga uma de duas coisas: opera ou não opera. A conversa real é mais lenta. Eu mostro o tamanho, o local, a forma, e explico o que cada um desses fatores acrescenta ao risco. Boa parte das pessoas sai de lá sem cirurgia marcada, com um plano de acompanhamento e um exame remarcado. Outra parte sai entendendo por que vale a pena tratar agora. As duas saem sabendo por quê, que é o que faltava quando entraram.

Situação ilustrativa, montada a partir de atendimentos reais. Nenhum paciente específico é descrito.

O vocabulário do seu laudo

As palavras que aparecem no exame e quase nunca são explicadas.

Escore de risco
Ferramenta que soma vários fatores (tamanho, localização, idade, pressão, histórico) para estimar o risco de ruptura do seu caso, em vez de olhar só o tamanho.
História natural
O que se espera que aconteça com a lesão se nada for feito. É a base de comparação de qualquer decisão de tratar.
Circulação anterior e posterior
As duas grandes regiões do sistema de vasos do cérebro. Aneurismas da circulação posterior costumam pesar mais no risco.
Vigilância por imagem
O acompanhamento com exames repetidos em intervalos definidos, para detectar crescimento. É tratamento ativo, não é abandono.

Para levar com você

  • O aneurisma é uma dilatação na parede de um vaso do cérebro.
  • Nem todo aneurisma precisa de cirurgia: a decisão é individual.
  • Pesam o tamanho, o local, a sua idade e a sua história.
  • Muitos aneurismas pequenos têm risco de romper abaixo de 1% ao ano.
  • Tratar é trocar a certeza de romper um dia pelo risco momentâneo da cirurgia.
  • Clipagem e embolização são os dois caminhos; a escolha é do seu caso.

Perguntas para levar à consulta

Anote as respostas. Sair da consulta com isso escrito vale mais do que tentar lembrar depois.

  1. Quais fatores do meu caso pesaram para essa recomendação?
  2. O que acontece com esse aneurisma se eu não fizer nada?
  3. Se eu optar por acompanhar, qual é o plano de exames?
  4. Quais são os riscos concretos do tratamento no meu caso?
  5. Quantos casos como o meu você trata por ano?
  6. Existe pressa, ou eu posso pensar e conversar com a família?

Este guia nasceu de perguntas reais de consultório e tem finalidade educativa. Ele não substitui uma avaliação médica: o diagnóstico e a conduta dependem do seu exame e das suas imagens.

Referências

  1. Greving JP et al. PHASES score for prediction of risk of rupture of intracranial aneurysms. Lancet Neurol, 2014. DOI
  2. Morita A et al. The natural course of unruptured cerebral aneurysms (UCAS Japan). N Engl J Med, 2012. DOI

Imagem: Roberto Stefini, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

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Perguntas que eu mais escuto sobre isso

Todo aneurisma precisa ser operado?
Não. A decisão é individual: pesam juntos o tamanho, o local, a sua idade e a sua história. Aneurismas pequenos, em muitos casos, têm risco de ruptura abaixo de 1% ao ano e podem apenas ser acompanhados de perto, com exames periódicos.
Ainda vale a regra de só operar aneurisma acima de 7 mm?
Esse corte é hoje considerado ultrapassado. Usamos escores que somam vários fatores para estimar o risco do seu caso, e não apenas o tamanho da lesão.
O que quer dizer trocar uma certeza pelo risco?
De um lado está a certeza de que, sem tratar, o aneurisma vai romper em algum momento. Do outro, o risco momentâneo do tratamento, que acontece uma vez e num ambiente controlado, na hora escolhida. Indicar a cirurgia é fazer essa troca.
Existe um tamanho a partir do qual todo aneurisma precisa ser operado?
Não. Esse tipo de corte fixo é considerado ultrapassado. Hoje se usam escores que somam tamanho, localização, formato, idade, pressão e histórico para estimar o risco do caso específico.
Quanto tempo eu tenho para decidir?
Fora da situação de ruptura, quase nunca é uma decisão de horas. Costuma haver tempo para completar exames, conversar com a família e até ouvir outra opinião. Pressa para decidir, sem urgência clínica, é um sinal de alerta em qualquer consulta.
E se eu escolher não tratar?
Essa também é uma escolha legítima, desde que seja informada. Nesse caso o plano passa a ser vigilância por imagem e controle rigoroso dos fatores de risco, com uma revisão da decisão se alguma coisa mudar.

Descobriram um aneurisma?

Se encontraram um aneurisma no seu exame e você está entre operar e esperar, vamos conversar com calma e olhar o seu caso inteiro, não só a imagem.

Atendimento particular · Instituto Neuros, Piracicaba · Resposta em poucas horas

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