Dr. Cézar Kabbach, Neurocirurgia

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Descobri um aneurisma no cérebro. E agora?

O que muda (e o que não muda) na sua vida quando um aneurisma é encontrado, sem pânico e sem ilusão.

Escrito por Dr. Cézar Kabbach, neurocirurgia vascular e base do crânio·6 min de leitura

Poucas palavras assustam tanto quanto “aneurisma”. Mas, na maioria das vezes, o cenário é bem menos dramático do que a imaginação pinta. Deixa eu te explicar com calma o que isso significa.

O que é, e por que não costuma doer

O aneurisma é uma bolha na parede de um vaso do cérebro, como a câmara de ar de um pneu que estufa num ponto mais fraco.

O aneurisma não roto é quase sempre silencioso: aquela dor de cabeça do dia a dia quase nunca é dele. Ele fica quietinho, sem dar sintoma.

Angiotomografia dos vasos cerebrais mostrando um aneurisma
Angiotomografia dos vasos do cérebro. O aneurisma aparece como uma dilatação na parede da artéria, a tal bolha num ponto mais fraco do vaso.Imagem: Cerevisae, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

A dor que é emergência

A dor do aneurisma é quando ele rompe: súbita, explosiva, a pior da vida, do nada. Isso é emergência, ligue 192 ou vá ao pronto-socorro na hora. Reconhecer essa diferença é o que salva.

“Essa dor de cabeça que a senhora teve foi o maior alerta e o maior milagre que aconteceu, porque a senhora descobriu antes de romper. Muda completamente o cenário.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório

O risco real, sem alarmismo

Na maioria dos aneurismas pequenos, o risco de ruptura fica abaixo de 1% ao ano. Ele sobe com o tamanho, o local e a pressão alta. Pequeno não é zero, mas também não é a bomba-relógio que muita gente imagina.

Achar um aneurisma antes de romper é a melhor coisa que existe. Quando é preciso tratar, há dois caminhos (o clipe cirúrgico e a embolização), e a escolha é individual, para o seu caso.

De onde ele vem, e quando investigar a família

A pergunta que vem logo depois do susto costuma ser: por que eu? Na maior parte das vezes não existe uma causa única. O que existe é uma parede de vaso que foi ficando mais frágil ao longo da vida, e alguns fatores empurram isso: pressão alta, cigarro, aterosclerose e a própria idade. Controlar pressão e parar de fumar não são conselhos genéricos aqui, são as duas coisas que mais mexem no risco.

Existe também um componente familiar. Ele não vale para todo mundo, e é justamente por isso que a recomendação é específica: quando há dois ou mais parentes de primeiro grau com aneurisma ou com hemorragia por aneurisma, vale investigar a família. Fora dessa situação, sair rastreando parente por parente costuma gerar mais ansiedade do que informação.

E existe a pergunta que ninguém consegue responder: quando ele romperia? Não dá para saber. Pode ser daqui a trinta anos, pode ser que a pessoa viva a vida inteira sem nunca ter esse problema. É exatamente por isso que a decisão não se apoia num palpite sobre o futuro, e sim no risco estimado do seu caso, com o seu exame na mão.

“Sabe quando você tem uma bicicleta e o pneu faz uma bolha? É igualzinho que acontece no vaso da cabeça.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório
Quando é para procurar o pronto-socorro agora

Dor de cabeça súbita e explosiva, que chega ao máximo em segundos e é descrita como a pior da vida, principalmente se vier com rigidez na nuca, vômito, visão dupla, desmaio ou confusão. Não espere passar, não dirija: ligue 192.

Como isso chega no consultório

A cena mais comum não é a que as pessoas imaginam. Não é alguém passando mal: é alguém que foi ao pronto-socorro por outra coisa, fez uma tomografia e ouviu que apareceu um aneurisma. Sai de lá com o exame na mão, sem entender, e passa a semana inteira convencido de que tem uma bomba na cabeça. Quando essa pessoa senta na minha frente, a primeira coisa que eu faço não é falar de cirurgia. É explicar que o aneurisma não roto quase nunca dói, que aquela dor de cabeça provavelmente não era dele, e que descobrir antes é a melhor coisa que poderia ter acontecido.

Situação ilustrativa, montada a partir de atendimentos reais. Nenhum paciente específico é descrito.

O vocabulário do seu laudo

As palavras que aparecem no exame e quase nunca são explicadas.

Aneurisma não roto
O aneurisma que ainda não sangrou. É o cenário da maioria dos achados e o que permite tratar com calma e planejamento.
Hemorragia subaracnóidea
O sangramento que acontece quando o aneurisma rompe, espalhando sangue no espaço em volta do cérebro. É a emergência que a dor em trovão anuncia.
Achado incidental
A lesão encontrada por acaso, num exame pedido por outro motivo. É assim que a maior parte dos aneurismas não rotos aparece.
Angiotomografia e angiorressonância
Exames que mostram os vasos do cérebro sem cateter. Costumam ser o primeiro passo da investigação.
Angiografia digital
O exame feito por um cateter que entra pela virilha e sobe até os vasos do cérebro. É o que mostra o desenho do aneurisma com mais detalhe e ajuda a definir o tratamento.

Para levar com você

  • O aneurisma é uma bolha na parede de um vaso.
  • O não roto costuma ser silencioso, sem dar dor.
  • A dor súbita e explosiva é emergência: 192.
  • Na maioria dos pequenos, o risco de romper é abaixo de 1% ao ano.
  • O risco sobe com tamanho, local e pressão alta.
  • Dois ou mais parentes de 1º grau com aneurisma: vale investigar a família.

Perguntas para levar à consulta

Anote as respostas. Sair da consulta com isso escrito vale mais do que tentar lembrar depois.

  1. Qual é o tamanho e em que artéria está o meu aneurisma?
  2. Qual é a estimativa de risco de ruptura no meu caso, considerando todos os fatores?
  3. O meu caso é de tratar agora ou de acompanhar?
  4. Se for acompanhar, de quanto em quanto tempo eu repito o exame, e qual?
  5. O que eu posso fazer para reduzir o meu risco no dia a dia?
  6. Alguém da minha família precisa investigar?

Este guia nasceu de perguntas reais de consultório e tem finalidade educativa. Ele não substitui uma avaliação médica: o diagnóstico e a conduta dependem do seu exame e das suas imagens.

Referências

  1. Greving JP et al. Development of the PHASES score for prediction of risk of rupture of intracranial aneurysms. Lancet Neurol, 2014. DOI
  2. Morita A et al. The natural course of unruptured cerebral aneurysms in a Japanese cohort (UCAS Japan). N Engl J Med, 2012. DOI
  3. Thompson BG et al. Guidelines for the management of patients with unruptured intracranial aneurysms. AHA/ASA, Stroke, 2015. DOI

Imagem: Cerevisae, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

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Perguntas que eu mais escuto sobre isso

Aneurisma no cérebro dói?
Na maioria das vezes, não. O aneurisma não roto é quase sempre silencioso, e aquela dor de cabeça do dia a dia quase nunca é dele. A dor do aneurisma é a da ruptura: súbita, explosiva, a pior da vida, do nada.
Qual é o risco de um aneurisma pequeno romper?
Na maioria dos aneurismas pequenos, o risco de ruptura fica abaixo de 1% ao ano. Ele sobe com o tamanho, com o local e com a pressão alta. Pequeno não é zero, mas também não é a bomba-relógio que muita gente imagina.
Descobri um aneurisma por acaso, num exame feito por outro motivo. Isso é ruim?
É o contrário: achar um aneurisma antes de ele romper é a melhor coisa que existe. Quando é preciso tratar, existem dois caminhos, o clipe cirúrgico e a embolização, e a escolha é individual.
Aneurisma cerebral é de família?
Pode ter componente familiar. Quando há dois ou mais parentes de primeiro grau com aneurisma, vale investigar a família.
Descobri um aneurisma. Posso continuar trabalhando e fazendo exercício?
Na maioria dos casos a vida segue enquanto a decisão é tomada, mas isso é individual e precisa ser combinado com quem está acompanhando você. O que vale para todo mundo é controlar a pressão de verdade e parar de fumar, porque esses dois pontos mexem no risco.
O que aumenta o risco de um aneurisma romper?
Pesam o tamanho, a artéria em que ele está, o formato, a pressão alta, o cigarro e um sangramento anterior. Por isso a estimativa é feita com escores que somam vários fatores, e não olhando só o tamanho.
Se eu não operar agora, o que acontece com o acompanhamento?
Acompanhar não é não fazer nada. É repetir o exame de imagem em intervalos definidos para detectar crescimento, além de controlar pressão e parar de fumar. Aneurisma que cresce entre um exame e outro muda de categoria.

Descobriu um aneurisma?

Se encontraram um aneurisma no seu exame e você quer entender o seu risco real e as opções com calma, vamos conversar.

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