Dr. Cézar Kabbach, Neurocirurgia

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Base do crânio: o porão por onde passa tudo

Por que essa é a região mais delicada para operar, o que passa por ali, e o que esperar da recuperação.

Escrito por Dr. Cézar Kabbach, neurocirurgia vascular e base do crânio·9 min de leitura

Quando eu digo que opero a base do crânio, quase ninguém sabe o que isso quer dizer. Eu costumo explicar assim: a base do crânio é o porão da casa. E é pelo porão que passa a fiação inteira.

O porão da casa

Numa casa, é pelo porão que passam os canos e a fiação. No corpo é a mesma coisa: a base do crânio é o assoalho onde o cérebro se apoia, e é por ela que entram e saem os nervos e as artérias que fazem o resto funcionar.

Só que aqui o porão não tem espaço sobrando. Cada estrutura passa por um buraco próprio no osso, chamado forame, e uma encosta na outra. Não existe caminho largo: existe corredor apertado.

Ilustração anatômica da base do crânio vista por cima, com as fossas anterior, média e posterior e seus forames
A base do crânio vista por dentro, de cima. As três fossas onde o cérebro se apoia, e os forames por onde passam os nervos e a artéria carótida. Cada buraco desse tem nome e uma função que depende dele.Imagem: Gray's Anatomy (1918), domínio público

O que passa por ali

Pela base do crânio passam o nervo da visão, os nervos que movem os olhos, o nervo que dá sensibilidade ao rosto, o nervo que mexe os músculos da face, o nervo da audição e do equilíbrio, e os nervos que comandam engolir e falar.

Passa também a artéria carótida, que é o cano principal de sangue para o cérebro, entrando por um canal dentro do osso temporal.

Cada milímetro ali tem uma função com nome e sobrenome. Não existe região neutra na base do crânio.

“A base do crânio não tem região neutra. Cada milímetro ali tem uma função com nome e sobrenome.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório

Por que isso exige subespecialidade

Operar essa região não é uma questão de coragem, é de treino específico. O tumor quase nunca está solto: ele empurra, envolve ou gruda em estruturas que não se pode puxar.

Por isso a cirurgia é feita sob microscópio, em corredores que já existem entre as estruturas, e não abrindo caminho novo. Muitas vezes o melhor movimento do dia é o que eu decido não fazer.

É uma área a que eu escolhi me dedicar, com formação específica nos Estados Unidos, e é a que eu faço todos os dias.

A recuperação não é uma linha reta

Depois de uma cirurgia de base de crânio, cansaço e inchaço no rosto são esperados nas primeiras semanas. Isso assusta a família, e quase sempre faz parte do caminho.

Quando um nervo foi manipulado, mesmo preservado, ele pode demorar a voltar ao normal. Nervo é estrutura lenta: melhora em meses, não em dias.

Tem dia melhor e dia pior, e quem está em casa costuma achar que um dia ruim significa retrocesso. Quase nunca significa. O que importa é a direção ao longo das semanas, não o placar de ontem.

Por que a via de acesso decide metade da cirurgia

Uma pergunta que quase ninguém faz, e que muda o resultado tanto quanto a técnica em si, é por onde se chega até a lesão.

Na base do crânio raramente existe um caminho reto. O que existe são corredores naturais entre estruturas que já estão ali, e escolher qual deles usar define o que vai ficar na frente do cirurgião e o que vai ficar protegido atrás.

Uma mesma lesão pode ser abordada por vias diferentes, e cada uma tem um preço. Uma pode dar um ângulo melhor sobre o tumor ao custo de passar mais perto de um nervo. Outra pode ser mais segura para o nervo e exigir mais tempo de cirurgia. Em alguns casos a melhor via é pelo nariz, por dentro, sem abrir o crânio.

Não existe via superior em abstrato. Existe a via que cabe naquela lesão, naquela anatomia, naquela pessoa. Quando alguém me pergunta qual técnica eu uso, a resposta honesta é que isso se decide olhando o exame dela, não antes.

“Muitas vezes o melhor movimento do dia é o que eu decido não fazer.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório
Depois da cirurgia, o que não pode esperar

Saída de líquido claro pelo nariz ou pelo ouvido, principalmente se piorar quando você abaixa a cabeça, precisa ser avaliada rápido: pode ser fístula liquórica. Febre com dor de cabeça forte e rigidez na nuca, piora da visão, visão dupla nova, ou fraqueza que estava melhorando e voltou a piorar também são motivo para procurar atendimento no mesmo dia.

Como isso chega no consultório

Uma cena que se repete no consultório é a da família que chega no décimo dia de pós-operatório achando que algo deu errado. O paciente está cansado, com o rosto inchado, dormindo demais, e num dia estava melhor do que no seguinte. Eu explico que cansaço e inchaço nas primeiras semanas fazem parte, e que nervo é estrutura lenta: quando ele foi manipulado, mesmo preservado, ele volta em meses, não em dias. O que eu peço é que parem de comparar hoje com ontem e passem a comparar esta semana com a de duas atrás. A conversa muda quando a régua muda.

Situação ilustrativa, montada a partir de atendimentos reais. Nenhum paciente específico é descrito.

O vocabulário do seu laudo

As palavras que aparecem no exame e quase nunca são explicadas.

Base do crânio
O assoalho de osso onde o cérebro se apoia, entre a cabeça e o rosto e o pescoço.
Forame
Cada buraco no osso por onde passa um nervo ou um vaso. Cada um tem nome e conteúdo próprio.
Fossa anterior, média e posterior
As três regiões em que a base do crânio é dividida. O local da lesão em cada uma muda a via de acesso e os riscos.
Nervo facial
O nervo que move os músculos da expressão do rosto. É o que mais preocupa em cirurgias do ângulo entre cerebelo e ponte.
Schwannoma vestibular
Tumor benigno do nervo do equilíbrio, antigamente chamado de neurinoma do acústico. É o tumor clássico dessa região.
Fístula liquórica
Vazamento do líquido que envolve o cérebro, que pode sair pelo nariz ou pelo ouvido. É uma complicação que precisa de tratamento.
Via endonasal
Acesso feito por dentro do nariz, com endoscópio, sem abrir o crânio. Usado em lesões da linha média da base.

Para levar com você

  • A base do crânio é o porão da casa: é por ela que passa a fiação inteira.
  • Nervo da visão, do movimento dos olhos, do rosto e da audição passam por ali.
  • A artéria carótida entra no crânio por um canal dentro desse osso.
  • Não sobra espaço: cada estrutura passa por um forame próprio, encostada na outra.
  • Por isso é área de subespecialidade, feita no microscópio e por corredores naturais.
  • Cansaço e inchaço nas primeiras semanas são esperados e assustam a família.
  • Nervo manipulado melhora em meses, não em dias. A régua certa é a semana, não o dia.

Perguntas para levar à consulta

Anote as respostas. Sair da consulta com isso escrito vale mais do que tentar lembrar depois.

  1. Onde exatamente está a minha lesão e quais estruturas estão encostadas nela?
  2. Qual via de acesso você usaria no meu caso, e por quê?
  3. Quais nervos correm risco nessa cirurgia e o que isso significaria no dia a dia?
  4. No meu caso, é melhor operar agora ou acompanhar com ressonância?
  5. Quantos dias de internação e quanto tempo até eu voltar às minhas atividades?
  6. Quantas cirurgias desse tipo você faz por ano?

Este guia nasceu de perguntas reais de consultório e tem finalidade educativa. Ele não substitui uma avaliação médica: o diagnóstico e a conduta dependem do seu exame e das suas imagens.

Referências

  1. Torres R et al. Multivariate Analysis of Factors Influencing Facial Nerve Outcome following Microsurgical Resection of Vestibular Schwannoma. Otolaryngol Head Neck Surg, 2017. DOI
  2. Zhang J et al. Facial and Cochlear Nerve Complications following Microsurgical Resection of Vestibular Schwannomas in a Series of 221 Cases. Med Sci Monit, 2015. DOI
  3. Bowers CA et al. Surgical Treatment of Vestibular Schwannoma: Does Age Matter? World Neurosurg, 2016. DOI

Imagem: Gray's Anatomy (1918), domínio público.

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Perguntas que eu mais escuto sobre isso

O que é a base do crânio?
É o assoalho onde o cérebro se apoia, o osso que separa a cabeça do rosto e do pescoço. Por ela passam os nervos que comandam visão, movimento dos olhos, sensibilidade do rosto, expressão facial, audição e deglutição, além da artéria carótida.
Por que essa cirurgia é considerada mais difícil?
Porque não sobra espaço. As estruturas passam por buracos estreitos no osso, encostadas umas nas outras, e nenhuma delas pode ser afastada sem consequência. O trabalho é feito no microscópio, por corredores que já existem.
Todo tumor de base do crânio precisa de cirurgia?
Não. Muitos são acompanhados com ressonância por anos sem nunca precisar operar. A cirurgia entra quando há sintoma, crescimento documentado ou risco de comprometer uma estrutura importante. Não operar também é uma decisão ativa.
Vou ficar com o rosto torto depois da cirurgia?
Na maioria das vezes, não. Em cirurgias de schwannoma vestibular com o nervo facial preservado anatomicamente, séries publicadas mostram boa função facial em cerca de 74% já na primeira semana e em torno de 84% depois de um ano. E parte de quem sai com fraqueza recupera ao longo dos meses.
Quanto tempo demora para voltar ao normal?
Cansaço e inchaço nas primeiras semanas são esperados. Quando um nervo foi manipulado, a recuperação é lenta por natureza, contada em meses. O que importa é a direção ao longo das semanas, não a comparação com ontem.
Por que preciso de um neurocirurgião de base do crânio, e não de um neurocirurgião geral?
Pela mesma razão que existe subespecialidade em qualquer área: é treino e volume nessa anatomia específica. A diferença aparece exatamente nos milímetros onde está o nervo.
Dá para operar pelo nariz, sem cortar a cabeça?
Em parte dos casos, sim. Lesões na linha média da base, como as da hipófise e algumas do clivus, podem ser abordadas por via endonasal com endoscópio. Isso depende de onde a lesão está e de como ela se relaciona com os vasos e nervos vizinhos, não da preferência de ninguém.
Vou perder audição?
Depende de qual estrutura está envolvida e de como está a audição antes. Em tumores do nervo do equilíbrio, a preservação da audição útil é possível em casos selecionados, principalmente em tumores menores e quando ainda existe audição funcional antes da cirurgia. É uma conversa que precisa ser honesta caso a caso.
Fico com cicatriz aparente?
Na maioria das vias a incisão fica atrás da linha do cabelo ou na dobra natural atrás da orelha, e com o tempo passa despercebida. Nas vias por dentro do nariz não existe incisão externa nenhuma.
Idade avançada impede a cirurgia?
Idade sozinha não é contraindicação. Séries que compararam pacientes acima e abaixo de 65 anos não encontraram diferença nos resultados de nervo facial, audição ou complicações. O que pesa é a condição clínica geral, não o número na certidão.
E se eu preferir não operar agora?
Acompanhar é uma decisão legítima em muitos casos, e não é o mesmo que não fazer nada: envolve ressonância em intervalos definidos e uma conversa clara sobre o que faria mudar de ideia. Muita lesão de base do crânio é acompanhada por anos sem nunca precisar de cirurgia.

Tem uma lesão na base do crânio?

Se encontraram um tumor ou uma lesão nessa região e você quer entender as opções com calma, sem pressa e sem jargão, vamos conversar.

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