Dr. Cézar Kabbach, Neurocirurgia

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Um vaso normal não sangra. Então por que sangrou?

Quando alguém tem uma hemorragia no cérebro sem ter batido a cabeça, existe uma causa. Encontrá-la é o que evita a próxima.

Escrito por Dr. Cézar Kabbach, neurocirurgia vascular e base do crânio·9 min de leitura

Quando chega um paciente com sangramento no cérebro sem trauma, a primeira pergunta que eu faço não é como parar o sangue. É por que esse vaso sangrou. Porque vaso saudável não rompe sozinho.

O que é uma hemorragia espontânea

Existe o sangramento por trauma, quando uma pancada rompe um vaso que era saudável. A causa vem de fora, e a história conta isso sozinha.

E existe o sangramento espontâneo, que acontece sem pancada nenhuma. Uma parede de vaso íntegra e elástica aguenta a pressão do dia a dia sem se romper. Se ela cedeu sem que nada batesse ali, é porque naquele ponto havia uma fraqueza.

Angiografia cerebral digital mostrando um aneurisma sacular em uma artéria do cérebro
Uma angiografia cerebral. O contraste desenha a árvore arterial inteira, e no meio dela aparece a bolha do aneurisma. É esse exame que costuma revelar a causa que a tomografia não mostrou.Imagem: Acervo do Dr. Cézar Kabbach

Os suspeitos de sempre

Quando eu investigo um sangramento espontâneo, procuro entre alguns suspeitos conhecidos: o aneurisma, que é uma bolha na parede da artéria; a malformação arteriovenosa, um emaranhado onde artéria e veia se conectam sem os vasos finos que deveriam existir no meio; o cavernoma, um amontoado de vasos frágeis; a fístula, uma comunicação anormal entre artéria e veia; e a pressão alta de longa data, que vai desgastando os vasos pequenos por dentro.

Um estudo holandês com 298 pessoas que tiveram hemorragia cerebral sem trauma encontrou uma causa estrutural no vaso em 23% delas, praticamente uma em cada quatro.

E essa chance não é igual para todo mundo. Ela sobe muito em quem é mais jovem, em quem sangrou nas regiões mais superficiais ou na fossa posterior, e em quem não tem sinais de desgaste dos vasos pequenos no exame. Nesse perfil, a probabilidade passa de 50%.

“Vaso saudável não rompe sozinho. Se sangrou sem pancada, existe um motivo, e o meu trabalho é achar esse motivo.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório

A angiografia: enxergar por dentro do vaso

Para achar o culpado eu preciso, muitas vezes, entrar no vaso. A angiografia faz isso: um cateter fino entra por uma artéria na virilha ou no punho e sobe até os vasos do cérebro, onde o contraste desenha a árvore arterial inteira em tempo real.

A tomografia com contraste, que é o primeiro exame na maioria dos casos, encontra boa parte das causas, mas não todas. No mesmo estudo holandês, ela sozinha achou 17%, e foi a angiografia por cateter que completou o quadro até os 23%.

É por isso que, em alguns casos, mesmo com tomografia normal, a investigação precisa continuar. Exame normal não é sinônimo de ausência de causa.

Por que achar a causa muda tudo

Tratar só o sangue resolve o momento e deixa a pessoa convivendo com a mesma fraqueza que já rompeu uma vez.

Achar e tratar a causa é resolver a origem. Um aneurisma tratado é um aneurisma que não vai sangrar de novo. Uma malformação tratada sai da conta de risco.

Todo sangramento tem uma causa. Encontrá-la é o meu trabalho, e é o que separa atravessar o episódio de realmente sair dele.

Quando a primeira angiografia não mostra nada

Existe uma situação que angustia muito, e que vale explicar com clareza: a angiografia foi feita, estava tudo lá, e mesmo assim não apareceu causa nenhuma.

Isso acontece, e nem sempre significa que não existe causa. Um coágulo fresco pode estar comprimindo e escondendo uma malformação pequena. Um vaso em espasmo pode não encher de contraste. A lesão pode ser minúscula.

Por isso, em padrões específicos de sangramento, repetir o exame algumas semanas depois faz parte do protocolo. Uma revisão que juntou 26 estudos mostrou que, num tipo determinado de hemorragia com primeira angiografia negativa, cerca de uma em cada dez pessoas tinha um aneurisma que apareceu só no segundo exame.

Se te chamaram para repetir a angiografia, isso não é sinal de que erraram da primeira vez. É o contrário: é sinal de que estão investigando até o fim.

“Tratar só o sangue resolve o momento. Tratar a causa é o que impede que aconteça de novo.”

Dr. Cézar Kabbach, no consultório
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Como isso chega no consultório

Aparece com frequência o paciente jovem que teve um sangramento, fez tomografia com contraste que não mostrou causa nenhuma, e recebeu alta com a explicação de que foi a pressão. Quando eu olho o caso, muitas vezes está tudo ali: pessoa de quarenta e poucos anos, sangramento numa região superficial, sem nenhum sinal de desgaste dos vasos pequenos no exame. É exatamente o perfil em que a chance de existir uma causa escondida é mais alta, e não o contrário. Nesses casos eu levo a investigação adiante, e não é raro a angiografia encontrar o que faltava.

Situação ilustrativa, montada a partir de atendimentos reais. Nenhum paciente específico é descrito.

O vocabulário do seu laudo

As palavras que aparecem no exame e quase nunca são explicadas.

Hemorragia espontânea
Sangramento no cérebro que acontece sem trauma. Indica que havia uma fraqueza no vaso.
Aneurisma
Bolha na parede de uma artéria, num ponto onde ela ficou mais fina.
Malformação arteriovenosa
Emaranhado em que artérias se ligam direto às veias, sem os vasos finos que deveriam existir no meio. O sangue chega com pressão alta demais para a veia.
Cavernoma
Amontoado de vasos de paredes frágeis, que pode sangrar em pequenas quantidades ao longo do tempo.
Fístula arteriovenosa dural
Comunicação anormal entre artéria e veia na membrana que reveste o cérebro.
Angiografia (ou arteriografia)
Exame em que um cateter sobe até as artérias do cérebro e o contraste desenha a árvore arterial em tempo real.
Causa macrovascular
O termo técnico para uma causa estrutural nos vasos maiores, como aneurisma, malformação ou fístula.
Doença de pequenos vasos
O desgaste dos vasos finos do cérebro, associado a pressão alta e idade. Quando ela aparece no exame, a chance de haver uma causa estrutural é menor.

Para levar com você

  • Vaso com parede íntegra não rompe sozinho: sangramento sem trauma tem causa.
  • Os suspeitos: aneurisma, malformação, cavernoma, fístula e pressão alta de anos.
  • Num estudo com 298 pessoas, 23% tinham causa estrutural no vaso, 1 em cada 4.
  • A chance passa de 50% em quem é jovem, sangrou em região superficial e não tem desgaste de vasos pequenos.
  • A tomografia com contraste acha boa parte, não todas: sozinha, encontrou 17%.
  • A angiografia entra por dentro do vaso e completa o que faltou.
  • Tratar o sangue resolve o episódio. Tratar a causa impede o próximo.

Perguntas para levar à consulta

Anote as respostas. Sair da consulta com isso escrito vale mais do que tentar lembrar depois.

  1. Já sabemos qual foi a causa do meu sangramento, ou ainda não?
  2. Quais exames eu já fiz, e qual causa cada um deles consegue ou não descartar?
  3. Pelo meu perfil, a chance de existir uma causa tratável é alta ou baixa?
  4. Se ainda não achamos a causa, vale repetir algum exame mais adiante?
  5. Se encontrarmos a causa, quais seriam as opções de tratamento?
  6. Enquanto isso, tem alguma restrição ou algum cuidado que eu deva ter?

Este guia nasceu de perguntas reais de consultório e tem finalidade educativa. Ele não substitui uma avaliação médica: o diagnóstico e a conduta dependem do seu exame e das suas imagens.

Referências

  1. van Asch CJJ et al. Diagnostic yield and accuracy of CT angiography, MR angiography, and digital subtraction angiography for detection of macrovascular causes of intracerebral haemorrhage (DIAGRAM). BMJ, 2015. DOI
  2. Hilkens NA et al. Predicting the presence of macrovascular causes in non-traumatic intracerebral haemorrhage: the DIAGRAM prediction score. J Neurol Neurosurg Psychiatry, 2018. DOI
  3. Nesvick CL et al. Repeat Catheter Angiography in Patients with Aneurysmal-Pattern Angiographically Negative Subarachnoid Hemorrhage. Neurocrit Care, 2021. DOI

Imagem: Acervo do Dr. Cézar Kabbach.

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Perguntas que eu mais escuto sobre isso

O que é uma hemorragia espontânea?
É o sangramento no cérebro que acontece sem trauma nenhum. Como um vaso com a parede íntegra aguenta a pressão do dia a dia, um sangramento sem pancada indica que havia uma fraqueza naquele ponto.
Quais são as causas mais comuns?
Aneurisma, malformação arteriovenosa, cavernoma, fístula arteriovenosa e a pressão alta de longa data, que desgasta os vasos pequenos por dentro. Cada uma tem tratamento diferente, e é por isso que achar qual delas é importa.
Qual a chance de existir uma causa tratável?
Num estudo holandês com 298 pessoas, 23% tinham uma causa estrutural no vaso, praticamente uma em cada quatro. A chance sobe bastante em pessoas mais jovens, em sangramentos superficiais ou de fossa posterior, e em quem não tem sinais de desgaste dos vasos pequenos.
Para que serve a angiografia?
Para enxergar por dentro do vaso. Um cateter fino sobe até as artérias do cérebro e o contraste desenha a árvore arterial em tempo real. É o exame que costuma revelar o aneurisma ou a malformação que a tomografia não mostrou.
Fiz tomografia e não apareceu nada. Posso ficar tranquilo?
Nem sempre. A tomografia com contraste encontra boa parte das causas, não todas: no mesmo estudo, ela sozinha achou 17%, e a investigação completa chegou a 23%. Dependendo da sua idade e do local do sangramento, vale continuar investigando.
Se acharem a causa, o tratamento resolve de vez?
Na maioria dos casos, sim, e é esse o ponto. Tratar só o sangue resolve o episódio. Tratar a causa tira a pessoa da rota de sangrar de novo pelo mesmo motivo.
O médico falou que foi a pressão alta. Preciso investigar mais?
Depende muito do seu perfil. Em pessoa mais velha, com sangramento nas regiões profundas e sinais de desgaste dos vasos pequenos no exame, a pressão explica bem e a probabilidade de outra causa é baixa. Em pessoa mais jovem, com sangramento superficial e sem esse desgaste, a chance de haver uma causa estrutural passa de 50%, e aí vale ir adiante.
A angiografia é um exame perigoso?
É um exame invasivo, e por isso não é pedido para todo mundo. O risco de complicação permanente é baixo, em torno de 0,6% nas séries publicadas. A decisão pesa esse risco contra a chance de encontrar uma causa tratável no seu caso específico.
Se não acharem a causa, o que acontece?
Em parte dos casos a conduta é repetir o exame algumas semanas depois, porque um coágulo pode estar escondendo uma lesão pequena. Em outros, a investigação se encerra com acompanhamento clínico e controle rigoroso da pressão. O que não se faz é encerrar sem ter ido até onde o seu perfil pedia.
Posso sangrar de novo?
Essa é a pergunta certa, e a resposta depende inteiramente da causa. Se a causa foi encontrada e tratada, o risco de novo sangramento por aquele motivo cai muito. Se a causa não foi encontrada, o risco depende do que ficou sem explicação, e é por isso que a investigação importa tanto.
Quanto tempo demora para recuperar de uma hemorragia cerebral?
Varia demais conforme o tamanho e o local do sangramento. O que é comum a quase todos os casos é que a recuperação é medida em meses e costuma continuar melhorando bem depois do que as pessoas esperam, principalmente com reabilitação.

Teve um sangramento e ficou sem resposta?

Se você ou alguém da família teve uma hemorragia cerebral e a causa nunca ficou clara, vamos conversar e ver o que ainda vale investigar.

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